domingo, 29 de janeiro de 2017

Eu gosto

Eu gosto da minha pele, gosto das marcas dela, gosto até da cicatriz perto da boca, do dia em que um cachorro me mordeu, sim, ele mordeu meu rosto. 
Gosto das manchas, dos cortes, eu adoro minhas estrias, acho que são belos desenhos. Eu gosto delas porque elas dizem que eu sou de verdade, de células, de coisas que a gente estuda na escola, em biologia.
Eu gosto de mim, gosto do que eu penso e não acho pedante dizer: eu me adoro.
Gosto do que eu acho da vida, dos filmes, das músicas e mesmo quando eu não gosto do que eu penso, eu mudo depois.
Eu gosto de mim porque eu não tenho medo de mudar, eu não tenho medo de pedir desculpas, eu não tenho medo de dizer "nossa, você tem razão"
Ao contrário, adoro ser convencida, adoro ouvir um bom argumento que me desmonta. Eu gosto de todas comidas que eu gosto, gosto delas e gosto de gostar delas. Gosto de tudo que eu gosto e não me envergonho de nada que eu gosto, até do que deveria. Gosto do meu humor que nunca é constante, mas eu tô sempre disposta a melhorar. Gosto de ser feliz mesmo triste. Não é para esconder nada, mas porque gosto de alegria na melancolia e quando eu preciso, não forço nada, só me escondo em baixo da cama e como gelatina sozinha. Pronto, eu já estou melhor.
Gosto de meus amigos, gosto deles e gosto de falar deles, eu tenho orgulho de todos meus amigos, eu falo deles e mostro como verdadeiros troféus.
Eu acho lindo o fato de ter conquistado a amizade de uma pessoa tão [insira aqui uma característica de um amigo meu].
O mundo não é um lugar bom, mas ele vai continuar não sendo mesmo que eu o odeie ou me tranque para sempre.
Não há opções além de viver, viver de verdade, viver com verdade, viver com gente, com seres vivos, com todos os sentimentos que são despertados quando vivemos com outros humanos.
As vezes nossos defeitos nem são defeitos.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Anestesia

,De gole em gole buscava alguma sensação, ler aquilo havia lhe deixado anestesiada, não estava sentindo nada, nem vazio. Bebeu, bebeu muito e aquele nada, que nem constituía um vazio, não passava. É  lógico que ela sentia algo, só não sabia identificar, afinal, nunca sentira nada parecido. Era como ela tivesse engolido um abismo, desses abissais. Talvez por isso a bebedeira não ajudou, apenas transformou o abismo numa fossa tão profunda quanto a das Marianas (jogue no Google). Nem conseguia estruturar pensamento, nem pensava em nada, mas chorava. Era a primeira vez que ela bebia sozinha, escolheu o pior bar para fazer isso, um tosco com musica ruim,achou que assim não encontraria ninguém do seu circulo. Encontrou! Um ex babaca que tentou que ela contasse o porque chorava. Ela estava em seu nível máximo de degradação, mandou tomar no cu sem ressentimento. Ele saiu imediatamente. Chorou mais, arrumou briga no banheiro e foi embora. Pensou que estava vivendo a vida errada, que aquela era a vida de outra pessoa e não a dela, fechou os olhos com fé e imaginou que poderia abri-los em outra realidade, mas quando os abriu ainda estava num C3 branco modelo 2014, um pouco embriagada e totalmente desnorteada no meio da Avenida Júlio Buono, zona norte da maior cidade da América Latina. Queria ligar para alguém, queria alguém que abraçasse com toda a verdade do mundo, mas estava envergonhada de ligar para os amigos numa situação de desespero, depois de abandona-los por tanto tempo. Percebeu outra vez o abismo que havia engolido, viu que era na verdade maior do que sentiu. Essa ausência de tudo estava levando ela a um surto. Ligou o carro e correu, correu, correu sem imaginar rota ou destino, estava em tão alta velocidade que os pensamentos não a alcançaram, ela só corria e não sentia e nem pensava. Não havia nem dor, mas o vazio ainda estava. Em 5 segundos acabou com abismo e com ela mesma, bateu em altíssima velocidade contra a parede da escola em que concluiu o colegial. Deixou uma interrogação e uma dor terrível. O culpado nem soube que era assassino, deitou-se no caixão como se pudesse chorar aquelas lágrimas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O que resta de você em você mesmo.

Acordar cedo para lhe procurar na cama enquanto se mexe nesse quase despertar.
Eu não te achei.
Tomar café atentando em todos os detalhes, lhe procurando enquanto passa patê no pão.
Eu não te achei.
Te observar assistindo tv, quase desesperada por um pouco de você.
Eu não te achei.
Te olhar nos olhos, te procurar e não lhe encontrar doeu.
Foi você quem terminou comigo e foi embora, deixou só esse corpo que eu reconheço, mas com olhares que eu não entendo.

domingo, 2 de novembro de 2014

So-cor-ro

Socorro
eu só corro
socorro
gritam num só coro
socorro
eu sou como
um grande corredor
socorro
eles me atravessam
e não me enxergam.
socorro
eu só corro
em socorro
de mim mesma.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Hemorragia Interna

Na noite torta, sua pele dourada
era o que mais brilhava.
Na escuridão, ora do coração, ora da luz elétrica
eu admirava sua pele
lambia o seu peito que é meu.
Entre choro e gozo
a torta noite transcorreu.
Nem meu, nem seu.
A fina fresta de luz que iluminava
informava que já era hora de fim.
Todos os telespectadores boêmios
que adoram nossas histórias
estavam sedentos por um final
Triste ou feliz.
A bela noite de verão em que vivíamos, amanheceu.
Como toda manhã, amanheceu rasgando a noite
e ressaqueada. Embriagada de amor, amor jurado de morte.
Algumas manhãs sangram.
Essa sangrou como poucas, sangrou sem corte.
Sangrou e você não viu.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Pater Pisciano

Em algumas noites com imagens recortadas
eu via seus olhos tortos na beira da loucura.
Seus olhos tortos lá.
Sua esperança no oco, sempre deixou os comuns loucos.
A esperança decrépita  tornou as noites
com céu vermelho nas melhores lembranças de mim.
Sobre mim, eu lembro de você.
Essa crença no inexiste e tua expressão de profeta
Os sons  sufocados ou a vida sufocada
dentro de um travesseiro, coisas que foram bordando a menina.
Ancião da transparência, sempre turvo.
Sempre afeto, sempre inexato, sempre perto.
Ela lembra dos seus olhos firmes, firmes de amor.
 Menino e velho, paradoxo de si.







sábado, 17 de maio de 2014

com que roupa eu vou.

com que dor eu escrevo?
posso usar o fato de você ser meu primeiro amor
ou falar que é sempre assim comigo
vou dizer que estou me sentindo enganada
ou falar do quanto eu me entreguei á você.
com que dor eu vou lhe dizer sobre esse ardor?